Os anos se passaram e Nova Iorque seguia seu curso natural, sem que sua população pudesse imaginar o impacto do que estava por vir. Em janeiro de 1963, o então Presidente da República, João Goulart, oficializou o Decreto-Lei nº 2.035 (publicado no Diário Oficial da União em 18 de janeiro daquele ano). O documento autorizava o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) a desapropriar uma área de aproximadamente 78.700 km² às margens do Rio Parnaíba, abrangendo terras do Maranhão e do Piauí. O objetivo era monumental: a construção da Barragem de Boa Esperança.
Mais uma vez, o destino de Nova Iorque cruzava-se de forma drástica com as forças do Rio Parnaíba. O que para o restante do país era vendido como o ápice do desenvolvimento e do progresso, para os nova-iorquinos soou como uma sentença condenatória. A notícia de que a cidade seria completamente submersa deixou os habitantes atônitos, mergulhados em dias angustiantes de aflição, inquietação e desespero. No início, muitos se recusavam a acreditar; parecia impossível que uma obra humana pudesse parar a correnteza do imponente Parnaíba a ponto de apagar uma cidade inteira do mapa.
A realidade, porém, desembarcou rápido. Pouco tempo após a publicação do decreto, um verdadeiro exército de profissionais começou a tomar as ruas: assistentes sociais, topógrafos, engenheiros e destacamentos do Exército Brasileiro chegaram com uma missão clara: iniciar, do zero, o planejamento de uma nova vida para o povo.
A Escolha do Novo Chão e a COHEBE
Erguer uma nova cidade do nada exigiu intensos debates sobre a localização ideal. Cogitou-se, inicialmente, a construção nos territórios onde hoje ficam os povoados de Orozimbo e Mosquito, na zona rural de Pastos Bons. Contudo, a distância excessiva do Rio Parnaíba fez com que os planejadores mudassem de rota. A decisão final recaiu sobre a "Fazenda Porteiras", um terreno de 353,8 hectares pertencente ao senhor Euvaldo Neiva de Souza, localizado a exatos 5.900 metros da velha cidade.
A responsabilidade pela reconstrução total ficou a cargo da empresa COHEBE (Companhia Hidrelétrica de Boa Esperança), sob o comando do engenheiro Moreira. Além da sede de Nova Iorque, a subida das águas também condenou os povoados de Porto Seguro e São José, cujas populações seriam inteiramente anexadas à nova sede urbana.
Naquela época, o município era composto por sete distritos: Nova Iorque (sede), Mangabeira, Milhãs, Mucambinho, Porto Seguro, São José e Brejo, estruturados na clássica política do interior nordestino, liderada por proprietários de terras, criadores e comerciantes. Através da COHEBE, os moradores tiveram seus bens imóveis (urbanos e rurais) indenizados e receberam casas novas em uma estrutura urbana totalmente planejada e desenhada do zero.
1968: O Adeus e a Velha Cidade Submersa
O ano do êxodo foi 1968. Aos poucos, as famílias começaram a abandonar suas casas, carregando em carroças e caminhões tudo o que podiam salvar, vendo o cenário de suas vidas ser deixado para trás. Foi uma despedida marcada por um rastro de lágrimas e profundas resistências.
Moradores mais antigos guardam na memória relatos dramáticos daqueles dias: houve famílias que precisaram ser retiradas às pressas e à força pelos soldados do Exército. Elas recusavam-se a sair, mesmo com as águas do Parnaíba já invadindo as salas e submergindo as paredes de tudo o que haviam construído com o suor de uma vida inteira.
Ao final, a velha Nova Iorque desapareceu sob o espelho d'água da barragem, levando consigo suas construções históricas e parte de sua força econômica tradicional. O passado físico desfez-se no fundo do rio, mas o povo partiu levando consigo as memórias vivas de um tempo que a água não pôde apagar.