Por volta de 1764, as primeiras comitivas de gado conduzidas por bandeirantes baianos e pernambucanos rasgaram o solo maranhense. Encantados com a abundância de olhos d'água e a fertilidade da terra, estabeleceram ali as bases do município de Pastos Bons.
A apenas 24 quilômetros da margem esquerda do Rio Parnaíba, a história da região ganhou um novo contorno com a consolidação da fazenda de gado Sussuapara, cravada na localidade conhecida como Porto das Almas. O proprietário era o português Domingos do Espírito Santo e Silva, um homem que carregava um passado sombrio: foragido da Coroa Portuguesa, ele tinha sua cabeça valendo uma alta recompensa, vivo ou morto.
Nas terras maranhenses, Domingos encontrou o refúgio perfeito. Sempre que o perigo rondava, ele se embrenhava na vegetação e se ocultava no topo do Morro do Urubu, um ponto estratégico de observação a dois quilômetros do Rio Parnaíba.
A sorte do proprietário mudou drasticamente em uma noite de 1839, em pleno estopim da Balaiada. Necessitando reabastecer seu esconderijo com gêneros alimentícios, Domingos desceu do morro e adentrou a casa da fazenda. Foi um erro fatal.
Surpreendido na escuridão, ele foi cercado e capturado pelas forças legais sob o comando do Major Clementino de Sousa Martins — filho do Barão de Oeiras e governador da província do Piauí. Sem qualquer hesitação, o militar amarrou o português a um dos morões do curral da Sussuapara.
Desesperada, Dona Josepha, esposa de Domingos, tentou comprar a vida do marido. Ofereceu ao Major um resgate colossal: dois mil patacões de prata (moedas de 960 réis, cada uma pesando 20 gramas de prata pura). O Major Clementino aceitou a fortuna. Porém, ignorando a palavra de honra do Império, ele embolsou a prata e manteve o fazendeiro acorrentado.
O prisioneiro foi arrastado até o Porto das Almas, onde cruzaram o Rio Parnaíba in direção às terras piauienses. A marcha forçada seguiu por cerca de 90 quilômetros até alcançarem a Barra do Rancho.
Foi ali que a crueldade se consumou. Sob as ordens do Major Clementino, Domingos do Espírito Santo e Silva foi executado por sangramento. O crime foi cometido na presença de um de seus filhos, que se recusou a abandonar o pai até o último suspiro.
Com o assassinato de seu fundador, a imponente fazenda Sussuapara desmoronou e desapareceu no tempo. Como marco definitivo dessa tragédia, o antigo Porto das Almas foi rebatizado, perpetuando na memória do rio o nome de Porto da Marimba.
O ano de 1871 marcou o início de uma nova era para o Porto da Marimba. Uma comissão técnica, chefiada pelo engenheiro norte-americano Eduardo Burnet, desembarcou na região com uma missão audaciosa: realizar a limpeza do canal do Rio Parnaíba e desobstruir as cachoeiras que travavam o avanço da navegação regional.
Vislumbrando o potencial estratégico daquele ponto, Burnet não se limitou ao trabalho técnico. Ele ordenou a construção da primeira casa com cobertura de telhas da localidade e decidiu fixar residência ali, estabelecendo um comércio forte focado em atrair os sertanejos e movimentar a economia local.
O crescimento foi fulminante. Em pouco tempo, o acampamento de operários e comerciantes começou a tomar forma de comunidade. Para fundar oficialmente a nova vila, Eduardo Burnet contou com a cooperação direta de pioneiros brasileiros: Bernardino do Espírito Santo e Silva, Justino Neiva de Souza, Anália Augusta de Neiva e João Henrique Ferreira.
Nascido sob a forte área de influência de Pastos Bons, o povoado expandiu-se em ritmo acelerado. O reconhecimento oficial não tardou: através do Decreto-Lei nº 1.382, de 11 de maio de 1886, a localidade foi oficialmente desmembrada de Pastos Bons, elevando-se ao status de município sob o nome de Vila Nova.
Quatro anos mais tarde, em 1890, diante do progresso avassalador e do desenho urbano que se consolidava, Eduardo Burnet decidiu batizar em definitivo a sua criação. Como uma homenagem nostálgica e ambiciosa à sua terra natal nos Estados Unidos, a promissora Vila Nova deixava o passado para trás e nascia, oficialmente, Nova Iorque.
O ano de 1925 trouxe o eco da revolução para as ruas de Nova Iorque. A cidade foi surpreendida pela chegada de um destacamento da icônica Coluna Prestes: o Batalhão de Cavalaria do revolucionário Luís Carlos Prestes, comandado pelo Coronel Djalma Dutra.
A princípio, o plano da força revolucionária era interceptar a retirada das tropas legalistas sediadas em Uruçuí e Benedito Leite, a 130 quilômetros dali. No entanto, após um combate desfavorável, os 1.500 homens do batalhão perderam-se da rota original e, sem informações precisas sobre o terreno, acabaram marchando diretamente rumo a Nova Iorque.
Antecipando o avanço dos revolucionários, o pânico tomou conta da população local. Quando o batalhão finalmente invadiu a cidade, encontrou um cenário fantasma: a maioria dos moradores havia fugido às pressas para os interiores do município, para o topo protetor do Morro do Urubu ou cruzado o Rio Parnaíba em busca de abrigo no Piauí. Apenas três famílias decidiram ficar e encarar a fúria do bando de mais de mil homens: as dos senhores José Lopes Milhomem, José Italiano de Araújo e Mariano da Silva.
Com o controle total da cidade, o Coronel Djalma Dutra tentou apaziguar a situação. Mandou emitir ordens para que os refugiados retornassem, garantindo que ninguém seria ferido e prometendo que haveria carne para o sustento de todos os moradores indefesos.
Na prática, porém, a realidade foi avassaladora. Os "revoltosos", como passaram a ser chamados pelos ribeirinhos, desembarcaram exaustos, famintos e maltrapilhos. Movidos pela necessidade extrema de conter a fome do bando, os soldados ignoraram as promessas de ordem: arrombaram estabelecimentos comerciais, invadiram residências e passaram a abater gado em grande quantidade no meio das ruas.
Nova Iorque sofreu um golpe bárbaro em sua infraestrutura e memória. Durante uma semana de terror e intranquilidade, as forças revolucionárias saquearam sistematicamente o comércio e as famílias mais abastadas. Em um ato de vandalismo tático, o bando incendiou os arquivos do 2° Ofício, a Coletoria Estadual e a Prefeitura Municipal, além de destruir completamente o aparelho de telégrafo. O ataque criminoso deixou o município sem qualquer meio de comunicação e apagou décadas de registros formais da sua história.
Até mesmo o comércio fluvial foi sufocado. Embarcações que singravam o Parnaíba eram interceptadas e confiscadas pelas tropas, incluindo um grande carregamento vindo de Uruçuí, cujas mercadorias foram totalmente extraviadas junto aos saques locais.
Após sete dias de ocupação, o batalhão finalmente deixou a cidade destruída, seguindo rio abaixo em direção à capital piauiense. À medida que a poeira baixava, a população sobrevivente retornava lentamente às suas casas para contabilizar os prejuízos e tentar reconstruir a história que os revoltosos tentaram queimar.
No ano de 1926, mais precisamente no mês de março, Nova Iorque foi surpreendida por uma fortíssima e inesperada chuva que inundou toda a cidade, destruindo residências, comércios e prédios públicos, deixando assim toda a população desamparada, sem ter a quem recorrer.
Diante desse triste acontecimento, a população mudou-se para um terreno mais alto e construiu uma nova cidade, sem receber qualquer ajuda externa. Durante a reconstrução, a cidade manteve a mesma estrutura: 13 ruas e 2 praças, sofrendo apenas ligeiras modificações.
Essa foi considerada a mais comentada enchente do Rio Parnaíba até então, registrando-se fatos que a tornaram terrivelmente inesquecível.
O reconhecimento definitivo veio em 29 de março de 1938. Em observância à lei nacional nº 311, o Decreto-Lei nº 45 elevou oficialmente Nova Iorque à categoria de cidade.
Antes de consolidar suas fronteiras atuais, o município viveu uma intensa dança das cadeiras territorial com a vizinha Benedito Leite. Por força do Decreto Estadual nº 75, de 22 de abril de 1931, o território de Benedito Leite havia sido anexado a Nova Iorque, figurando como seu distrito na divisão administrativa de 1933. Essa união, contudo, durou pouco: em 30 de setembro de 1935, Benedito Leite foi novamente desmembrada, recuperando sua autonomia e sua categoria de município independente.
De acordo com os dados do Recenseamento Geral de 1950, Nova Iorque abrigava uma população total de 5.625 habitantes (sendo 2.694 homens e 2.958 mulheres). Refletindo o Brasil daquela época, a vida pulsava longe do asfalto: cerca de 80% dos nova-iorquinos viviam e trabalhavam na zona rural.
A subsistência e a economia da cidade sustentavam-se fortemente na agropecuária e no extrativismo vegetal. O município, inclusive, alcançou uma marca histórica em 1956: com um rebanho impressionante de 46.000 caprinos, Nova Iorque consagrou-se como o maior criador da espécie em todo o estado do Maranhão.
No setor extrativista, mesmo sem o suporte de uma indústria organizada, a produção era surpreendentemente desenvolvida, destacando-se na exportação de amêndoas de babaçu e cera de carnaúba.
Nas águas do Rio Parnaíba, a pesca moldava o sustento de 27 pescadores artesanais. Embora não fossem organizados em uma Colônia oficial e fizessem uma pesca de menor escala, eles dominavam o rio a bordo de suas canoas, utilizando redes comuns e de arrasto, anzóis e currais. Já na área urbana, o abastecimento e a movimentação financeira da pacata cidade ficavam por conta de doze estabelecimentos varejistas e uma única e pioneira indústria.
Os anos se passaram e Nova Iorque seguia seu curso natural, sem que sua população pudesse imaginar o impacto do que estava por vir. Em janeiro de 1963, o então Presidente da República, João Goulart, oficializou o Decreto-Lei nº 2.035 (publicado no Diário Oficial da União em 18 de janeiro daquele ano). O documento autorizava o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) a desapropriar uma área de aproximadamente 78.700 km² às margens do Rio Parnaíba, abrangendo terras do Maranhão e do Piauí. O objetivo era monumental: a construção da Barragem de Boa Esperança.
Mais uma vez, o destino de Nova Iorque cruzava-se de forma drástica com as forças do Rio Parnaíba. O que para o restante do país era vendido como o ápice do desenvolvimento e do progresso, para os nova-iorquinos soou como uma sentença condenatória. A notícia de que a cidade seria completamente submersa deixou os habitantes atônitos, mergulhados em dias angustiantes de aflição, inquietação e desespero. No início, muitos se recusavam a acreditar; parecia impossível que uma obra humana pudesse parar a correnteza do imponente Parnaíba a ponto de apagar uma cidade inteira do mapa.
A realidade, porém, desembarcou rápido. Pouco tempo após a publicação do decreto, um verdadeiro exército de profissionais começou a tomar as ruas: assistentes sociais, topógrafos, engenheiros e destacamentos do Exército Brasileiro chegaram com uma missão clara: iniciar, do zero, o planejamento de uma nova vida para o povo.
Erguer uma nova cidade do nada exigiu intensos debates sobre a localização ideal. Cogitou-se, inicialmente, a construção nos territórios onde hoje ficam os povoados de Orozimbo e Mosquito, na zona rural de Pastos Bons. Contudo, a distância excessiva do Rio Parnaíba fez com que os planejadores mudassem de rota. A decisão final recaiu sobre a "Fazenda Porteiras", um terreno de 353,8 hectares pertencente ao senhor Euvaldo Neiva de Souza, localizado a exatos 5.900 metros da velha cidade.
A responsabilidade pela reconstrução total ficou a cargo da empresa COHEBE (Companhia Hidrelétrica de Boa Esperança), sob o comando do engenheiro Moreira. Além da sede de Nova Iorque, a subida das águas também condenou os povoados de Porto Seguro e São José, cujas populações seriam inteiramente anexadas à nova sede urbana.
Naquela época, o município era composto por sete distritos: Nova Iorque (sede), Mangabeira, Milhãs, Mucambinho, Porto Seguro, São José e Brejo, estruturados na clássica política do interior nordestino, liderada por proprietários de terras, criadores e comerciantes. Através da COHEBE, os moradores tiveram seus bens imóveis (urbanos e rurais) indenizados e receberam casas novas em uma estrutura urbana totalmente planejada e desenhada do zero.
O ano do êxodo foi 1968. Aos poucos, as famílias começaram a abandonar suas casas, carregando em carroças e caminhões tudo o que podiam salvar, vendo o cenário de suas vidas ser deixado para trás. Foi uma despedida marcada por um rastro de lágrimas e profundas resistências.
Moradores mais antigos guardam na memória relatos dramáticos daqueles dias: houve famílias que precisaram ser retiradas às pressas e à força pelos soldados do Exército. Elas recusavam-se a sair, mesmo com as águas do Parnaíba já invadindo as salas e submergindo as paredes de tudo o que haviam construído com o suor de uma vida inteira.
Ao final, a velha Nova Iorque desapareceu sob o espelho d'água da barragem, levando consigo suas construções históricas e parte de sua força econômica tradicional. O passado físico desfez-se no fundo do rio, mas o povo partiu levando consigo as memórias vivas de um tempo que a água não pôde apagar.
A transferência forçada em 1968 não foi apenas uma mudança de endereço; ela desestruturou profundamente a vida daquela população. Nos primeiros anos, o imponente Rio Parnaíba cobrou o preço da inundação: com a putrefação da vasta vegetação submersa, as águas tornaram-se completamente impróprias para o consumo e a pesca foi severamente afetada. O município testemunhou uma perda incalculável em suas benfeitorias, plantações e áreas agricultáveis, além do impacto devastador na fauna e flora aquáticas e terrestres. Até mesmo o tecido social rompeu-se, já que o planejamento urbano separou antigos vizinhos de uma vida inteira.
Para os moradores que sacrificaram tudo em nome do avanço energético do Nordeste, a ironia foi amarga: a energia elétrica não chegou de imediato à nova Nova Iorque. Passaram-se quase dez anos até que a população pudesse usufruir da eletricidade em suas casas.
Durante essa longa década de espera, o abastecimento dependia de geradores emprestados do município vizinho de Pastos Bons, que funcionavam com hora marcada. Rigorosamente às 22:00 horas, o sistema emitia um sinal clássico: as lâmpadas da cidade piscavam três vezes seguidas. Era o aviso definitivo de que o fornecimento estava prestes a ser cortado, dando o tempo exato para que a população se recolhesse no escuro de suas casas. A tão aguardada Usina de Boa Esperança só ligou seu primeiro gerador em 7 de abril de 1970, iniciando o lento processo de eletrificação da região.
Hoje, décadas após o êxodo, Nova Iorque reconta sua trajetória não como uma história de derrota, mas de impressionante força e determinação. É a narrativa viva de um povo que soube se recompor a cada fatalidade e reconstruir sua identidade com resignação, coragem e cabeça erguida, passando esse orgulho de geração em geração.
Em meio às lembranças e às cicatrizes deixadas pelo tempo, a velha cidade submersa mantém-se presente no imaginário local. Nova Iorque tornou-se, essencialmente, um verdadeiro Rio de saudades — onde o passado corre profundo nas águas, mas a memória flutua eterna e inabalável.
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